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Tributo

Foto do escritor: Bárbara MacedoBárbara Macedo

Alguém nos procurou para dizer que ela precisava de nós, que poderíamos aliviar o seu sofrimento. Aquele era mais que um simples chamado. Era um pedido de socorro. Irrefutável. Inadiável. Assim compreendemos e nos lançamos em sua direção.

Ainda me lembro de quando meus pés pisaram naquela casa pela primeira vez. A morada ficava em uma rua conhecida, por onde muitas vezes já havíamos passado. Mas não poderíamos imaginar que por trás daquelas paredes rabiscadas estavam ela e a sua dor. Aos pés do morro, não foi difícil encontrar o seu endereço. A casa de Totoca era passagem e também destino de muitos que procuravam colo e cuidado. A construção era pequenina, muito simples, com paredes sem reboco e chão de cimento. Havia apenas uma porta, a da cozinha, que dava direto para a viela principal da comunidade.

Eu fui a primeira a entrar e logo me deparei com aquele corpo franzino, acomodado numa caminha, no canto do único cômodo que havia além da cozinha. Planejaram um andar superior para aquela casa, mas a falta de recursos foi empecilho. Sem destino, ali no meio do quarto-sala, havia uma escada de alvenaria. Degraus insólitos ansiavam serventia.

Meus olhos percorreram todo o ambiente, a escassez despertava a minha atenção, mas foi num largo sorriso que eles se fixaram. Aceitei o convite e me aproximei do seu leito. Havia mais dentes que lábios, mais ossos que carne. Imediata empatia. Ela estava há meses sem mirar outras paisagens, vendo a doença consumir o seu próprio corpo. Enquanto eu imaginava como seria ocupar aquele lugar, ela percebeu a minha compaixão e tratou de me confortar.

- Está tudo bem! - ela disse.

Na falta de cadeiras ou bancos, a escada ganhou utilidade. Tornou-se o meu assento e também amparo para os tantos apetrechos necessários à assistência. Do alto de uns poucos degraus, pude acompanhar a consulta da médica, a avaliação minuciosa da enfermagem, a realização dos imensos curativos. Eu observava o árduo trabalho de distinguir e apartar os pedaços mortos de seu corpo vivo. Testemunhava suas expressões e percebia como a dor, por mais intensa e cruel que fosse, não tinha apagado o brilho de seu olhar.

Entre um procedimento e outro, ela me chamou para perto. Disse que gostava muito do meu nome e que tinha uma história para me contar. No dia seguinte, eu estava lá, com os meus ouvidos a postos. Eles recolheram muitas lembranças, algumas lágrimas e gargalhadas também. Saí da casa carregando um tesouro: a história de vida de Totoca.

Na semana seguinte, retornamos como combinado. Seu estado de saúde era cada vez mais crítico. A vida se esvaía por entre seus dedos. O câncer parecia vencer a luta sobre o seu corpo, mas não sobre a sua mente. Todas as vezes em que nós saíamos de sua casa, voltávamos no carro em completo silêncio. Secretamente cada um de nós previa que aquela seria a nossa última visita. Algumas vezes, confesso, esta foi a minha oração.

Inacreditavelmente, na semana seguinte nós retornávamos e ela estava lá, viva. Resistia a todas as dores. Sustentava a sua existência como alguém que carrega um pesado fardo. E na semana seguinte, a mesma coisa. Quanto mais dor ela sentia, mais força ela tinha.

Num dia, ela pediu mais uma vez para conversarmos. Não podia esperar. Tinha que ser naquele dia. Os outros foram embora e eu fiquei. Mirando meus olhos, ela confessou:

- Barbinha, estou com medo...

Abandonei todas as teorias, toda a técnica que deveria reger as minhas ações e disse a ela:

- Eu também estou.

Ali ela respirou aliviada e conversamos sobre nossos temores, nossas angústias, nossas esperanças. Naquele momento, ela precisava de mais que uma profissional. Ela precisava de um ser humano que sentisse como ela. E eu senti. Depois de uma longa conversa, atravessei a porta para ir embora olhando ela acenar a sua mãozinha esquelética, dizendo adeus. Como da primeira vez que a vi, ficou marcado em mim o seu sorriso.

Dois dias depois, recebi uma mensagem. Totoca havia partido. Eu chorei, sentindo imensa gratidão pela oportunidade de tê-la encontrado nesta vida. E também por ter aprendido com ela que até mesmo as escadas que não levam a lugar nenhum podem se tornar pontes. Sentada naqueles degraus fui alcançada por ela, por suas histórias cheias de tudo o que nos torna humanos. Hoje guardo comigo suas memórias como um tributo à sua existência.




 
 
 

4件のコメント


Tamiris Naccer
Tamiris Naccer
2021年3月19日

Como traduzir o que sentimos? Maravilhada com esse texto e com o rosto coberto de lágrimas reflito o que pudemos aprender com esse atendimento, ela foi um presente enorme em nossas vidas, ter a oportunidade de fazer parte de um momento na vida de Totoca é inestimável.

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Bárbara Macedo
Bárbara Macedo
2021年3月19日
返信先

Aprendi muito contigo também, Tamiris, minha amiga, geriatra querida, companheira de tantas aventuras. E que lindo é esse nosso encontro com o outro, do qual você não se furta. Encara e mergulha. Sou sua fã e desejo ter a oportunidade de trabalhar com você novamente. Obrigada por vir aqui me ler!

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Ana Lúcia
Ana Lúcia
2021年2月23日

Uma lágrima pende de meus olhos. Tento me recuperar, pois este é o momento de falar o quão sensacional foi a leitura desse texto. Com significado, com profundidade, com emoção, com carisma. Palavras que nos mostram esse "vai com Deus" tão difícil de ser dito. Queremos os nossos amores por perto. Ansiamos por ver muito mais do que por sentir. E sentir é sempre melhor com os olhos fechados. Então não se precisa ver. Sentimos com a ida pra longe ou não; com a ausência de corpo ou não. Apenas sentimos. E incrivelmente os teus textos me fazem mais sentir que apenas ver. Gratidão por tão profundas e sábias palavras. :)

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Felipe Buarque
Felipe Buarque
2021年2月17日

Emocionante o texto. Desculpe, não consigo comentar mais do que isso. Pra quem acompanhou essa história, mesmo que de longe, consegue visualizar toda a cena. Acredito que a mensagem seja: lute, enquanto houver vida. A própria existência é uma luta em si, uma vez que não sabemos quanto tempo estamos programados a ter. Sabemos apenas que é finito. Planos são bons e necessários, mas cada agora deve ser vivido, nem sempre como se merece, mas como se é preciso. Que possamos fazer a diferença enquanto há vida: trabalhando, lutando, perdoando, conversando, se aborrecendo, mas sem perder a esperança...

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