Final do dia. Entro no banheiro, olho no espelho e tudo o que vejo é cansaço. Ele aparece embaixo dos olhos e no coque improvisado sobre a cabeça. Retiro as roupas que me vestem, elas escorregam até o chão. Entro no espaço mais íntimo de todos, onde não há julgamentos. Meu corpo e a minha alma nus encontram a água, que cai morna sobre os pensamentos e alcança meus pés já fria. Os cabelos são inundados assim como são os olhos, que escolhem aquele instante e aquele lugar para enfim desaguarem. A espera foi longa, assim como desejo que seja o meu momento.
O barulho do chuveiro silencia o que está fora e é possível ouvir a voz do futuro aqui dentro me chamando. Eu faço um esforço em ficar no agora, mas é tarde demais. Já embarquei nessa viagem cheia de estratégias e pré-ocupações. Faço planos com mínimos detalhes que fracassam antes de se tornarem realidade. Olho adiante sempre, mas não consigo enxergar o destino. Este é apenas um detalhe. O que me consome é o constante movimento. A energia demandada é imensa. O peito aperta e não consigo respirar diante de tantas possibilidades.
Quando o ar falta e Chronos ri da minha confusão, Kairós me segura pela mão e me conduz ao tempo da alegria. Ele está distante, alguns anos antes, quando eu era menina e o coração era inteiro. Eu sorria, brincava, dançava e acreditava. Tudo era luz e o sonho estava vivo. Recordo que o dia era bonito, o véu longo, o vestido branco e as flores frescas. A nossa emoção preencheu todos os espaços. As fotografias, que nunca foram reveladas, registraram os muitos sorrisos.
Uma criança nasceu. O amor foi materializado. Também foi parido o cansaço. Madrugadas em claro e muitas ausências acabaram com o sonho. Ali, diante dos meus olhos, ele se foi. Até hoje me pergunto: será que fui eu? Será minha a culpa? Eu matei o sonho?
Ouço ao longe o chamado. "Mãe!" é a palavra-chave pronunciada que abre o portal e me traz de volta para o presente. Respondo que já vou. Já estou indo. Espera. Fecho o registro, alcanço a toalha. Com ela seco o meu corpo e os cabelos. Torço pensamentos e os guardo enrolados em fios de algodão. Abro a porta e encontro um par de olhos ansiosos, derramando amor-bálsamo sobre o meu corpo e a minha alma. Dou-me conta de que o sonho não morreu. Ele está ali, bem na minha frente, vivo e pedindo colo.
E há novos sonhos a serem concebidos em outras matérias e contextos. O convite persuasivo para o porvir continua de pé. Recuso. Cansei de viver no futuro. Ao passado sou grata e guardo suas memórias. Por hora, fico com o tangível. Respiro fundo e me imponho a presença no agora, para mim o tempo mais próximo da eternidade. Aproveito. É aqui que existo. É aqui que realizo.

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