Papai quase não vinha aqui em casa. Ele compreendeu, assim como mamãe, que eu precisava de privacidade, e sempre respeitou. Embora meu novo lar ficasse bem perto da casa deles, a visita de papai era rara e obedecia a um ritual. Ele chamava ao portão:
_ Filha!
Somente depois de autorizado, ele subia as escadas. Engraçado como eu sabia distinguir quando o chamado era pra mim, ou era para a minha mãe. Porque desde que eu me entendo por gente, ouvi meu pai chamar a minha mãe de “filha”. E ela também o chamava de “filho”. Nunca entendi bem esta forma de tratamento entre eles, mas achava lindo. Não que fosse dito sempre com carinho não, pois até nas discussões, rispidamente, era “filho” pra lá, “filha” pra cá.
Depois do chamado, eu ouvia seus passos lentos avançando degrau por degrau. Ele parava na entrada da sala e esperava eu atender, mesmo que a porta estivesse aberta. Era assim, delicadamente, que ele chegava e fazia questão de tirar as sandálias. Sempre tecia um comentário sobre a casa. Gostava de vir aqui, e me admirar em meu espaço. Orgulhava-se da minha conquista, eu sei. Podia sentir no seu olhar. Papai foi meu grande apoiador, e também meu mentor, com seus conselhos bons e ruins.
Nem sempre papai tinha razão. Era cabeça dura, teimoso. Muitas vezes sofri com este traço de sua personalidade, que eu humildemente confesso ter herdado. Justo porque me parecia com ele, não era tudo que ele falava que eu concordava. Desde muito cedo, fui taxada de “petulante” e “respondona” por questionar ordens, mas não por papai. Ele acolhia meus questionamentos. Eu me lembro de conversas que tinha com meu pai, ainda muito pequena, em que eu, contrariada, expunha a minha opinião – muitas vezes, aos gritos e prantos –, e ele simplesmente ouvia. Meu pai me ouvia. Mesmo que, depois de eu falar, ele viesse com um:
_ Você está errada, filha.
Ele sabia como me acalmar, mesmo não concordando comigo. Ele compreendia.
Depois dos elogios à casa, e da sua visível alegria toda vez que vinha, ele puxava uma cadeira e sentava à mesa da cozinha, enquanto eu oferecia um bolinho com café. Ali começava uma conversa gostosa, o relato de algum acontecimento, o compartilhamento de algum plano dele, uma confidência. Nós éramos confidentes. Ele dividia comigo assuntos que ele não falava para mais ninguém, tenho certeza. Eu conheci a sua fragilidade, e sendo meu pai, muitas vezes o amparei como filho. Às vezes, a gente ria – até gargalhava – de algum “causo” da sua infância na roça. Às vezes chorávamos, sobre uma tristeza comum. Papai não tinha estudado muito, mas tinha aprendido muitas coisas, e fazia questão de partilhar comigo. Nós falávamos sobre trabalho, família, estudos, sonhos... O respeito que sempre tive por ele, e por sua história de vida, o colocara num lugar muito especial de ensinamento para mim. Ele me aconselhava sempre. No entanto, não sabia de tudo. Muitas coisas nós descobrimos juntos.
Esta visita não demorava muito. Geralmente, depois de algum tempo, ele levantava e dizia que tinha que ir embora para fazer algo – desculpa para ele restabelecer a minha privacidade. Conversando, descíamos as escadas e parávamos no portão, onde a conversa durava mais alguns minutinhos. E sempre havia a nossa despedida, cheia de afeto. Um abraço. Por vezes, ficávamos ali, lado a lado, um com o braço amparado no ombro do outro. Assim, de forma simples, celebrávamos a nossa proximidade. Até um cafuné e um beijinho na careca.
_ Papai vai embora, filha. Até logo!
E foi. Hoje acordei e lembrei muito de papai. Olhando para a minha casa, muito limpa depois da faxina de ontem, desejei que ele estivesse aqui para admirá-la e para tomar um café comigo. Estaríamos alegres, neste lindo domingo de sol. Provavelmente, teríamos planos de fazer um churrasco ou qualquer coisa assim. Estaríamos juntos, aproveitando o dia em família. Mas ele não está mais aqui. Restou nossa despretensiosa promessa de reencontro.
Ainda assim, o dia parece especial, porque estou vivendo estas maravilhosas lembranças. E também porque cultivei, em um pequeno vaso, um pé de girassol, e hoje surgiu um botão. Andava desacreditada daquela plantinha, tão franzina. Não parecia que tão cedo daria flor. Eu a tenho regado fielmente todos os dias e hoje ela me surpreendeu. Mostrou-me que, apesar da sua aparente fragilidade, tem forças para florescer. Encho-me de esperança. Eu também hei de florescer. E a alegria há de voltar a visitar a minha casa e o meu coração.
***
Este texto foi escrito em setembro de 2020, em homenagem ao meu pai, falecido em 31/12/2016. Durante alguns anos, o luto foi colocado na gaveta e eu continuei a vida tentando me esquivar dele. Trabalhos, mestrado e outras tantas atividades me ocuparam. Mas com a pandemia e o distanciamento social, a permanência em casa me empurrou para abrir a gaveta. Sofri, chorei, senti tudo o que precisava sentir. E escrevi, como quem coloca remédio em uma ferida. Ela continua lá, mas está cicatrizando. A escrita e o tempo estão curando.
E aí, o que você achou do texto? Deixe o seu comentário para eu saber se ele fez alguma diferença pra você.

Esse texto possui uma relevância diferenciada pra mim, pois de alguma forma fui apresentada a ele antes mesmo de estar aqui. Fico feliz e extremamente emocionada em saber que, mesmo de longe, fiz um pouco parte dessa linda trajetória. Eu amo sua escrita: direta, fluida, parece uma conversa num final de tarde de um dia de outono, coisa gostosa de ler. Tô aqui pra aplaudir de pé! Satisfação em ver esse lindo desabrochar. Parabéns amiga!!